Bioeconomia: uma estratégia econômica para a Amazônia e o Brasil
Quando se fala em bioeconomia da Amazônia, o debate normalmente acaba dividido entre duas agendas. De um lado, a conservação. Do outro, o desenvolvimento econômico. Essa forma de enxergar a região influenciou políticas públicas, investimentos e até boa parte da discussão sobre mudanças climáticas nas últimas décadas. Talvez seja hora de fazer uma pergunta diferente: qual definição de desenvolvimento faz sentido para a Amazônia?
Essa pergunta ganha ainda mais importância quando olhamos para a realidade brasileira. Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), aproximadamente 71% das emissões brutas brasileiras de 2024 vieram da combinação entre mudança do uso da terra, florestas e agropecuária, sendo 42% do primeiro conjunto e 29% da agropecuária. É uma situação bastante diferente daquela observada na maior parte do mundo, onde o principal gargalo na transição para uma economia carbono neutra está associado ao setor de energia. Isso significa que, para o Brasil, reduzir emissões passa necessariamente pelo uso da terra. É nesse contexto que a bioeconomia ganha relevância.
A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) define a bioeconomia como a utilização sustentável de recursos biológicos renováveis para produzir alimentos, materiais, energia e serviços. A FAO amplia essa visão ao incorporar aspectos relacionados à segurança alimentar, desenvolvimento rural e uso sustentável dos recursos naturais. Na Amazônia, entretanto, a bioeconomia possui uma dimensão ainda maior.
Ela envolve também os conhecimentos tradicionais, os produtos da sociobiodiversidade, a restauração produtiva e, principalmente, as pessoas que vivem nesses territórios.
A discussão sobre bioeconomia deveria começar pela pergunta mais relevante: como construir uma economia regional centrada nas pessoas que vivem nesse território e é capaz de gerar prosperidade a partir da floresta como um ativo econômico permanente?
O Brasil construiu grande parte de sua economia exportando matérias-primas. Esse modelo foi importante em diferentes momentos da nossa história e continua tendo enorme relevância para o agronegócio nacional. Ao mesmo tempo, ele evidencia uma limitação conhecida: boa parte do valor agregado é capturada nas etapas posteriores da cadeia produtiva, normalmente distante do território onde o insumo primário é produzido.
O desenvolvimento da bioeconomia Amazônica oferece uma oportunidade rara de construir um caminho diferente.
Isso significa fomentar a verticalização de cadeias de valor capazes de processar matérias-primas regionalmente, a partir do investimento em pesquisa & inovação nos segmentos de alimentos, fertilizantes, cosméticos, fármacos, energia e novos materiais para diversas indústrias. Quanto maior for a capacidade de realizar essas etapas dentro da própria Amazônia, maior será a parcela da riqueza que permanecerá na região.
Na minha visão, esse deveria ser um dos principais indicadores de sucesso da bioeconomia brasileira: quanto do valor gerado pela biodiversidade permanece apropriado pelas mesmas pessoas que produziram aquela matéria-prima?
Essa discussão também passa pela forma como pensamos a produção rural na Amazônia.
Durante décadas, buscou-se reproduzir modelos agrícolas desenvolvidos para outras regiões do país. O sucesso extraordinário da agricultura brasileira no Cerrado naturalmente influenciou essa visão. Mas a Amazônia possui características climáticas, ecológicas e econômicas próprias. Talvez a maior oportunidade da região esteja justamente em desenvolver sistemas produtivos adaptados à floresta, e não em reproduzir modelos concebidos para realidades completamente diferentes.
Hoje, o bioma Amazônia possui cerca de 56 milhões de hectares ocupados por pastagens. Mais de 90% das áreas desmatadas na região tiveram a formação de pastagens como primeiro uso após a remoção da vegetação nativa. Esses números mostram que existe uma enorme oportunidade de recuperação produtiva em áreas que já foram abertas.
Expandir a bioeconomia brasileira não depende necessariamente da incorporação de novas áreas. Depende da capacidade de produzir mais valor por hectare nas áreas que já fazem parte da paisagem produtiva, tanto da floresta que já está lá, nativa, quanto da recuperação de áreas degradadas e subutilizadas.
É nesse ponto que sistemas agroflorestais, agricultura regenerativa, integração entre produção e restauração e outras formas de uso intensivo do conhecimento passam a desempenhar um papel estratégico.
Diversos estudos demonstram que sistemas agroflorestais podem apresentar elevada viabilidade econômica. Uma síntese produzida pela Embrapa em parceria com o Banco Mundial, publicada em 2025, identificou Taxas Internas de Retorno de 40,3% e 32,0% em dois arranjos agroflorestais em Rondônia, com retorno positivo estimado em cerca de seis anos. Um estudo recente da Esalq/USP na Transamazônica encontrou cacau em sistema agroflorestal com renda por hectare ao menos seis vezes superior à da pecuária extensiva.
Naturalmente, cada sistema depende das espécies utilizadas, do mercado, da logística, da assistência técnica e da gestão da propriedade. Não existe uma receita única e a armadilha da commoditização do açaí e do cacau também deve ser evitada. Mas os resultados mostram que aumentar significativamente a renda por hectare é uma possibilidade concreta quando conhecimento, tecnologia e organização produtiva caminham juntos.
Esses sistemas ainda apresentam outra característica importante.
Em vez de depender exclusivamente de uma única fonte de receita, podem combinar diferentes produtos ao longo do tempo. Culturas anuais geram renda nos primeiros anos, frutas entram em produção posteriormente, espécies florestais ampliam o horizonte econômico da propriedade e ativos ambientais, como créditos de carbono ou pagamentos por serviços ecossistêmicos, podem complementar a geração de receita. Tudo isso podendo ser feito sem deslocar a produção de proteína animal, que pode continuar a sendo produzida de forma mais eficiência, em uma área bem menor.
Essa diversificação reduz riscos e torna o fluxo financeiro mais resiliente. Ela também é o que sustenta economicamente a proposta, já que atividades isoladas raramente competem com a pecuária em receita por hectare. A viabilidade aparece quando a agregação de valor local acompanha o manejo florestal, restauração produtiva, a geração de créditos de carbono e serviços ambientais em um horizonte de resiliência e geração de valor no longo prazo.
Existe ainda um componente estratégico que raramente aparece no debate público.
O Brasil importa mais de 85% dos fertilizantes utilizados na agricultura e cerca de 96% do potássio consumido no país, de um número reduzido de fornecedores internacionais, o que torna nossa agricultura vulnerável a oscilações cambiais, conflitos geopolíticos e problemas nas cadeias globais de suprimento. Práticas regenerativas, bioinsumos e reciclagem de nutrientes não eliminam a necessidade de fertilizantes minerais, mas reduzem essa dependência. Essa discussão, portanto, Envolve também competitividade e resiliência do nosso pujante agronegócio.
Outro aspecto frequentemente negligenciado é que a bioeconomia não será construída a partir de um único modelo para toda a Amazônia. Cada território possui uma combinação própria de biodiversidade, infraestrutura, logística, vocação produtiva e acesso a mercados.
Nesse contexto, o mercado de créditos de carbono assume um papel importante. Os ativos ambientais podem viabilizar economicamente projetos de restauração, conservação e produção sustentável, diversificando fontes de receita e balanceando risco x retorno. Em um país onde para se cumprir o Acordo de Paris precisamos reduzir consistentemente as emissões ligadas ao uso da terra, esses instrumentos passam a integrar a estratégia de desenvolvimento territorial, juntamente com infraestrutura, assistência técnica, inovação e acesso a mercados.
Talvez essa seja a principal oportunidade da bioeconomia brasileira.
O país reúne a maior biodiversidade do planeta, uma agricultura reconhecida internacionalmente, instituições de pesquisa de excelência e um mercado crescente para produtos associados à sustentabilidade. Poucos países possuem uma combinação semelhante de ativos naturais, capacidade científica e potencial produtivo.
Transformar essa vantagem comparativa em vantagem competitiva dependerá menos da descoberta de novos produtos e muito mais da capacidade de atrair investimentos para a construção de cadeias produtivas sofisticadas, baseadas na assistência técnica a quem já está no território, fortalecendo cooperativas e empresas locais e aumentando a parcela da riqueza que permanece na Amazônia.
Veja também: Como a Nova Meta Climática da Europa Afeta o Brasil
- Fabiano Machadohttps://apsiscarbon.com/author/fabiano-machado/
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