Durante anos, boa parte da discussão sobre créditos de carbono florestais esteve concentrada em uma pergunta relativamente simples: o projeto é certificado? Porém, com o amadurecimento do mercado, essa pergunta deixou de ser suficiente.
A certificação continua sendo fundamental, mas projetos desenvolvidos em diferentes períodos, com metodologias e premissas distintas, podem apresentar vários níveis de robustez. No caso da qualidade dos créditos REDD+, que buscam remunerar reduções de emissões associadas à conservação de florestas, essa diferença está diretamente relacionada à forma como se responde a uma questão essencial: quanto desmatamento teria ocorrido se o projeto não existisse?
É a partir dessa comparação que se calcula grande parte das reduções de emissões atribuídas ao projeto. E é justamente nessa etapa que estão alguns dos principais desafios técnicos do REDD+.
Por isso, avaliar a qualidade de um crédito florestal exige olhar além do selo de certificação. É necessário compreender adicionalidade, linha de base, risco de desmatamento, leakage, incertezas, monitoramento e a metodologia utilizada para transformar conservação em toneladas de CO₂ equivalente.
O que é adicionalidade em projetos REDD+?
Um dos princípios centrais dos mercados de carbono é a adicionalidade.
De forma simplificada, uma redução de emissões é adicional quando não ocorreria no cenário mais provável sem o projeto. No caso dos padrões que exigem adicionalidade financeira, também é necessário demonstrar que a receita proveniente do carbono contribui para viabilizar as ações responsáveis por essa redução. O Verified Carbon Standard (VCS), por exemplo, estabelece que os projetos devem superar o cenário mais provável de “business as usual” e demonstrar que as reduções ou remoções não ocorreriam sem a receita dos créditos.
Em um projeto de conservação florestal, isso significa demonstrar que existe um risco real de desmatamento ou degradação e que as atividades programadas contribuem efetivamente para reduzir esse risco. No entanto, o cenário sem projeto nunca poderá ser diretamente observado.
Depois que uma floresta é protegida, não existe uma segunda floresta idêntica, no mesmo lugar e no mesmo período, capaz de mostrar exatamente o que teria acontecido sem aquela intervenção. Por isso, projetos REDD+ dependem de um contrafactual, representado pela chamada linha de base.
Linha de base em projetos REDD+: por que ela é tão importante?
A linha de base estima o nível de desmatamento esperado na ausência do projeto.
Imagine que uma determinada área teria perdido 10 mil hectares de floresta ao longo de um período sem nenhuma intervenção. Se, após a implantação do projeto, forem observados apenas 2 mil hectares de perda, parte da diferença poderá ser considerada desmatamento evitado e convertida em redução de emissões, depois de deduções e demais ajustes previstos pela metodologia.
Contudo, se o desmatamento esperado tivesse sido superestimado — por exemplo, 20 mil hectares em vez de 10 mil —, o volume calculado de emissões evitadas também seria maior. É por isso que a linha de base talvez seja um dos elementos mais sensíveis da qualidade dos créditos REDD+. Estudos científicos publicados nos últimos anos identificaram problemas de sobrecreditamento em parte dos chamados projetos REDD+ de primeira geração.
Uma síntese publicada em 2026, baseada em avaliações independentes de 44 projetos, concluiu a redução do desmatamento na maioria deles, mas encontrou diferenças relevantes entre o impacto estimado de forma independente e o volume utilizado na certificação. Entre as causas apontadas, estão a seleção das áreas de referência e os modelos excessivamente otimistas usados para projetar o desmatamento futuro.
Os resultados não significam necessariamente que os projetos analisados não tenham protegido florestas. Embora a pesquisa tenha identificado a redução do desmatamento, questiona-se quanto dessa proteção poderia ser corretamente convertida em créditos de carbono.
Em outras palavras, conservação e quantificação são problemas relacionados, mas diferentes.
Como as novas metodologias REDD+ mudaram a definição da linha de base
Parte das críticas ao REDD+ concentrou-se no grau de liberdade que algumas metodologias anteriores concediam aos próprios desenvolvedores para selecionar áreas de referência, parâmetros e modelos utilizados na construção das linhas de base. Essa flexibilidade possibilitava resultados muito diferentes, dependendo das premissas adotadas.
Estudos sobre metodologias de baseline mostram que mudanças no método de projeção, nos parâmetros ou nos dados utilizados podem gerar variações relevantes na estimativa de desmatamento futuro. Portanto, a resposta metodológica mais recente caminha para reduzir a discricionariedade.
No VCS, a metodologia VM0048, combinada ao módulo VMD0055 para projetos que evitam desmatamento não planejado, introduziu uma abordagem jurisdicional para a definição da linha de base. Em vez de cada desenvolvedor construir isoladamente sua própria projeção de desmatamento, são produzidos dados para uma jurisdição inteira — como um estado ou país — e o volume esperado de desmatamento é distribuído espacialmente de acordo com o risco identificado em cada área.
O processo considera dados históricos de cobertura florestal e variáveis capazes de ajudar a explicar onde o desmatamento tende a ocorrer. A Verra e prestadores de dados especializados elaboram mapas jurisdicionais de risco, e os projetos devem utilizar os dados alocados ao território em foco, e não mais desenvolver uma linha de base independente escolhendo livremente uma área de referência. Os mapas finais também passam por processos de revisão previstos pelo padrão.
Trata-se de uma mudança importante: parte relevante da definição do contrafactual deixa as mãos do próprio projeto. Isso não elimina toda a incerteza — nenhum modelo de futuro é capaz de fazer isso —, mas reduz um dos potenciais conflitos de interesse que estiveram no centro das críticas às metodologias anteriores.
Desmatamento histórico e risco futuro em projetos REDD+
Outro avanço importante é separar dois conceitos frequentemente confundidos: desmatamento histórico e risco de desmatamento. Uma área que perdeu pouca floresta nos últimos dez anos não necessariamente continuará intacta nos próximos dez.
Para avaliar o risco, a abordagem adotada pela VM0048/VMD0055 combina informações de desmatamento da jurisdição com sua distribuição espacial. Os mapas consideram características associadas à probabilidade de conversão da floresta, de forma que áreas mais expostas recebem proporcionalmente maior alocação do desmatamento esperado da jurisdição.
Essa diferença ajuda a responder a uma dúvida recorrente sobre adicionalidade.
Uma floresta preservada pode estar ameaçada?
Pode.
Aliás, em alguns casos, o baixo desmatamento histórico pode ser consequência de décadas de proteção territorial, governança local ou isolamento geográfico, e não evidência de que o território esteja livre de ameaças.
Terras indígenas são um bom exemplo. Estudos realizados na Amazônia brasileira mostram que esses territórios têm sido eficazes na contenção da perda de vegetação em comparação com áreas não protegidas ou com usos alternativos da terra.
Portanto, olhar apenas para a floresta que permaneceu em pé pode provocar uma conclusão equivocada: a de que a região nunca esteve ameaçada. A análise precisa considerar também porque a floresta permaneceu em pé e se as condições que a protegeram continuarão existindo.
Uma área pode apresentar um histórico de conservação justamente porque houve presença territorial, fiscalização, mobilização comunitária ou dificuldade de acesso. Se essas barreiras enfraquecem enquanto as pressões externas aumentam, o risco futuro pode ser muito diferente do observado no passado.
Como o avanço da fronteira de desmatamento altera o risco
Há, ainda, um fenômeno que pode ser descrito como efeito de esgotamento da fronteira.
Em regiões de expansão agropecuária ou exploração de recursos naturais, as áreas inicialmente mais acessíveis tendem a ser convertidas primeiro. Ao passo que as florestas disponíveis no entorno diminuem, territórios antes relativamente isolados se tornam as novas fronteiras de pressão econômica. Assim, uma floresta preservada e cercada por outras florestas apresenta um nível de risco diferente daquele observado quando grande parte de seu entorno já foi convertida.
Estradas ilustram bem esse processo. Pesquisas sobre a Amazônia mostram associação entre redes rodoviárias, inclusive vias não oficiais, e maior pressão de desmatamento sobre territórios indígenas. Mineração ilegal, incêndios e abertura de acessos clandestinos também aparecem associados à perda florestal.
Grandes projetos de infraestrutura, novas estradas, mineração, ocupações irregulares e grilagem podem, portanto, alterar rapidamente o risco de uma área que durante décadas apresentou pouca perda de cobertura vegetal. É justamente por isso que passado e futuro não são equivalentes.
Demarcação é fundamental, mas não substitui proteção efetiva
O reconhecimento legal de áreas protegidas e territórios indígenas tem importância comprovada na conservação das florestas. Seria incorreto minimizar esse papel. Estudos indicam que a formalização dos territórios reduz significativamente a perda de vegetação.
Mas a existência de proteção jurídica não faz desaparecer automaticamente atividades ilegais. Madeireiros, garimpeiros, grileiros e outros agentes podem continuar exercendo pressão sobre territórios formalmente protegidos, especialmente quando há expansão de acessos e enfraquecimento da fiscalização. Pesquisas identificam estradas clandestinas, pistas, mineração e pressões externas entre os fatores relacionados à vulnerabilidade das terras indígenas amazônicas.
Por isso, a adicionalidade de um projeto não deveria ser analisada apenas a partir da pergunta “a área é legalmente protegida?”. Convém avaliar se a proteção existente é suficiente para enfrentar as ameaças concretas presentes e futuras.
Vigilância territorial, monitoramento por satélite, presença em campo, combate a incêndios, fiscalização, fortalecimento da governança e criação de alternativas econômicas compatíveis com a conservação exigem recursos permanentes. Uma floresta pode ter proteção no papel e, ainda assim, precisar de capacidade operacional para que essa proteção seja efetiva.
Mudanças climáticas também mudam o risco
O risco florestal deixou de depender exclusivamente da ação direta do homem sobre a terra. O aumento da temperatura, secas mais intensas e alterações no regime de chuvas ampliam a vulnerabilidade das florestas, especialmente quando combinados com desmatamento, fragmentação e incêndios.
Estudos sobre a Amazônia demonstram a interação entre aquecimento, secas extremas, fogo e pressão antrópica na redução da resiliência florestal. Pesquisas também indicam que anos de seca severa podem acarretar fortes emissões associadas a incêndios mesmo quando o desmatamento apresenta tendência de queda.
Isso reforça outra característica dos projetos florestais: proteger uma área não é uma ação pontual, e sim um esforço de longo prazo.
Por que menos créditos REDD+ podem significar maior integridade
Metodologias mais conservadoras tendem, por definição, a limitar a quantidade de reduções de emissões que pode ser reconhecida quando existem dúvidas ou incertezas.
Na abordagem mais recente da Verra, por exemplo, a validade da linha de base para o desmatamento não planejado é de seis anos. Depois desse período, a baseline jurisdicional precisa ser reavaliada, incorporando dados mais recentes. A própria metodologia também utiliza fatores de desconto destinados a aumentar o conservadorismo da estimativa.
Além disso, a conta não termina ao comparar o desmatamento projetado com aquele observado dentro do projeto. É preciso considerar emissões efetivamente monitoradas e possíveis deslocamentos da pressão de desmatamento para outras áreas, o chamado leakage. O VMD0055 estabelece procedimentos específicos para estimar o deslocamento e prevê monitoramento ex post das emissões na área do projeto e nas regiões relevantes para leakage.
Incertezas também importam. Quanto maior a dúvida sobre estoques de carbono, taxas de desmatamento ou outros parâmetros relevantes, maior deve ser o cuidado para que essa incerteza não se transforme automaticamente em créditos.
Só depois do monitoramento é que as reduções declaradas seguem para verificação. No VCS, os resultados precisam ser auditados por um organismo independente de validação e verificação antes de a emissão dos créditos ser solicitada.
Esse conjunto de salvaguardas oportuniza um efeito que, à primeira vista, parece contraditório: um mesmo território pode gerar menos créditos sob uma metodologia mais conservadora.
Isso não significa necessariamente que o projeto tenha se tornado pior. Pode significar que o nível de evidência exigido para transformar conservação em crédito aumentou. E essa talvez seja uma das principais mudanças de perspectiva necessárias no mercado de carbono.
O sucesso de um projeto REDD+ não deveria ser medido pelo maior número possível de créditos emitidos, mas pela capacidade de demonstrar, com premissas conservadoras e dados verificáveis, que cada crédito corresponde a uma redução de emissões suficientemente robusta.
Como avaliar a qualidade dos créditos REDD+
As críticas feitas ao REDD+ nos últimos anos influenciaram o amadurecimento do mercado. Problemas associados a baselines excessivamente otimistas, à escolha de áreas de referência e à incerteza na estimativa do cenário sem projeto não devem ser ignorados.
Também seria um erro analisar todos os projetos e metodologias como se fossem iguais. As próprias críticas científicas mostram uma realidade mais complexa: projetos podem produzir benefícios concretos para a conservação e, ao mesmo tempo, apresentar problemas na quantidade de créditos atribuída a esses benefícios.
A resposta para esse desafio não é abandonar a mensuração, é torná-la melhor. Metodologias mais recentes caminham nesse sentido ao reduzirem a discricionariedade na construção das linhas de base, incorporarem abordagens jurisdicionais de risco, estabelecerem revisões periódicas, contabilizarem leakage e exigirem verificação independente.
Entretanto, nenhum desses mecanismos torna um crédito automaticamente perfeito. E nenhuma metodologia é capaz de eliminar completamente a incerteza envolvida em estimar um futuro. Sendo assim, compradores, empresas, governos e a sociedade deveriam fazer diversas perguntas.
Em vez de simplesmente questionar se um crédito REDD+ é certificado, é necessário perguntar como sua adicionalidade foi demonstrada, quem determinou sua linha de base, quais riscos foram considerados, quais deduções foram aplicadas e quais evidências comprovam as reduções de emissões declaradas.
No mercado de carbono florestal, qualidade não deveria significar emitir mais. Deveria significar conseguir sustentar melhor cada tonelada emitida.
Quer entender melhor a qualidade, a integridade e os critérios por trás de créditos REDD+? Fale com a Apsis Carbon e conte com nosso time para apoiar análises e decisões no mercado de carbono.
- Fabiano Machadohttps://apsiscarbon.com/author/fabiano-machado/
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