COP30 em Belém: da promessa à execução

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A 30ª Conferência das Partes (COP30), que acontece este mês em Belém do Pará, representa um ponto de inflexão nas negociações climáticas globais. Após quase três décadas de reuniões e promessas, a expectativa é de que esta edição marque a transição definitiva do discurso para a ação. E a Amazônia, bioma importantíssimo para o equilíbrio do clima planetário, é o palco onde o mundo vai decidir os próximos passos da economia verde. Isso, por si só, já imprime um simbolismo inédito ao evento. 

Da COP29 à COP30 

O último encontro (COP29), realizado em Baku, Azerbaijão, caracterizou-se pelos avanços no financiamento climático e pela tentativa de dar maior previsibilidade ao apoio financeiro internacional. As Partes definiram o chamado Novo Objetivo Quantificado Coletivo (NCQG), com a meta de mobilizar US$ 300 bilhões anuais até 2035 para países em desenvolvimento. Embora aquém do que a ciência considera necessário para refrear os impactos ambientais, o acordo consolidou uma estrutura de longo prazo e abriu caminho para a Rota de Baku a Belém. Trata-se de um roteiro de aceleração comprometido em levantar até US$ 1,3 trilhão anuais para gerenciamento dos efeitos da mudança do clima global. 

A COP29 também conseguiu destravar discussões históricas sobre os mercados internacionais de carbono — matéria de implicação direta no setor privado —, criando regras que conferem maior segurança jurídica e transparência às transações. Em resumo, Baku estabeleceu as bases financeiras e normativas que Belém deverá transformar em medidas práticas. 

De lá para cá, o cenário evoluiu significativamente. Sob a liderança brasileira, a COP30 vem sendo preparada com foco claro em adaptação e implementação. As Cartas da Presidência, assinadas pelo embaixador André Corrêa do Lago, delinearam seis eixos norteadores da conferência de 2025: 

  1. energia, indústria e transporte; 
  2. florestas e biodiversidade; 
  3. agricultura e sistemas alimentares; 
  4. cidades e infraestrutura; 
  5. desenvolvimento humano e social; 
  6. finanças, tecnologia e capacitação. 

A estruturação proposta reflete um paradigma diferente: a pauta climática deixa de ser vista apenas sob o prisma ambiental e se afirma como vetor de sustentabilidade econômica e competitividade. Ademais, essa abordagem sinaliza a vontade de integrar mitigação e adaptação dentro de um mesmo planejamento. Assim, rompe-se a lógica das negociações setoriais fragmentadas, que permeou as COPs anteriores.  

O contexto mundial reforça a necessidade de integração. Segundo a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), as emissões de gases de efeito estufa começaram a desacelerar, mas o ritmo ainda é insuficiente para manter o aquecimento terrestre dentro do limite de 1,5 °C. Ao mesmo tempo, cresce a pressão dos países mais vulneráveis — especialmente do grupo G77 + China — para que os compromissos de financiamento e transferência de tecnologia sejam de fato implementados.  

As conversas preparatórias em Bonn (Alemanha) e no pré-COP de Brasília confirmaram o movimento direcionado à adaptação socioeconômica e transição justa. Consequentemente, assuntos como perdas e danos serão centrais na conferência de Belém, a fim de proteger as comunidades e cadeias de suprimentos contra fenômenos climáticos extremos. 

A COP da adaptação 

Espera-se que a COP30 seja lembrada como “a COP da adaptação”, com ênfase em transformar compromissos em resultados tangíveis, particularmente em países do Sul Global. A Amazônia, sede do encontro, dará visibilidade à agricultura sustentável e às soluções baseadas na natureza como ativos estratégicos para a construção de modelos econômicos de baixo carbono. 

Belém proporcionará decisões relacionadas à conservação de florestas tropicais, biodiversidade e uso da terra. O Brasil, no papel de anfitrião e símbolo da maior floresta tropical do planeta, deverá usar essa posição para articular uma agenda de conciliação entre desenvolvimento e preservação. 

Outro alvo de tratativas será o financiamento climático. O debate atual já não se limita à definição de valores, envolve também a qualidade e a governança dos recursos financeiros: quem paga, quais são as condições de distribuição e como se assegura que o capital chegue a projetos reais de mitigação e adaptação. Esse ponto é particularmente sensível para empresas, as quais podem se beneficiar de fundos verdes e operações no mercado de carbono. Porém, elas precisam atender aos critérios de integridade e transparência que vêm sendo intensificados desde a COP29. 

A transição energética será mais um tópico relevante na conferência deste ano. Prevê-se o aprofundamento das discussões sobre a descarbonização da indústria e do transporte, com foco em energia renovável, hidrogênio verde e eficiência energética. Ainda que a eliminação dos combustíveis fósseis continue sendo um tema politicamente delicado, o consenso internacional tende a se mover em direção a metas mais explícitas e monitoráveis em prol da disseminação de tecnologias mais limpas. Ondas de calor, enchentes e furacões recordes têm demonstrado o custo da inação, aumentando a pressão por atitudes concretas. 

Há, ainda, a expectativa de que mais países divulguem as revisões de suas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) ao longo da COP30 e até o fim do ano. Países importantes para o atingimento das metas climáticas, como os Estados-membros da União Europeia — que divulgaram uma faixa indicativa, mas não as metas —, Índia e México, não haviam divulgado as suas novas metas dias antes do encontro em Belém. 

Vozes ativas na COP30 

O quadro político e diplomático da COP30 será diverso e complexo. Além do protagonismo do Brasil, estarão presentes chefes de Estado e representantes de países estratégicos para a economia global, como Alemanha, Reino Unido, Noruega, Chile e Colômbia. Também foram confirmadas as presenças de enviados da Índia, da China e de blocos econômicos africanos. Ao todo, 191 representações estrangeiras participarão do evento, incluindo o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer. 

O anúncio de que os Estados Unidos não enviarão autoridades a Belém cria um vazio notável, mas também pode abrir espaço para o Sul Global sobressair nas negociações. A despeito dessa ausência, a capital paraense estima receber 55 mil pessoas, entre delegações oficiais, membros da sociedade civil e imprensa internacional. 

Líderes indígenas, como Sonia Guajajara, terão importância central na defesa prática dos biomas e na definição de critérios socioambientais para projetos. Complementarmente, figuras de peso como Patricia Espinosa, diplomata mexicana e ex-chefe da UNFCCC, e Laurence Tubiana, diplomata francesa, arquiteta do Acordo de Paris e CEO da Fundação Europeia para o Clima, atuarão como enviadas especiais da presidência da COP30, reforçando a dimensão técnica e política do encontro. 

No que tange ao setor privado, a conferência reunirá executivos das principais companhias globais de energia, transporte, agronegócio e finanças. A expectativa é de que capital, ciência e território se encontrem para desenhar conjuntamente um futuro sustentável. 

Impactos da COP30 no meio empresarial 

As decisões da COP30 deverão impactar diretamente o custo, a operação e a competitividade das empresas nos próximos anos. Os acordos estabelecidos em Belém têm o potencial de redefinir os parâmetros de investimento, crédito e governança, fortalecendo a integração entre responsabilidade ambiental, transparência e reporte de riscos. Dessa forma, a conferência pode consolidar um novo ciclo de compromissos empresariais e regulatórios voltados a acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. 

Diante disso, as companhias serão impulsionadas a adotar ações proativas, como: mapear riscos e oportunidades climáticas em seus portfólios; desenvolver estratégias de descarbonização e adaptação alinhadas a padrões internacionais; identificar instrumentos de financiamento e incentivos pós-COP30; e implementar ferramentas de monitoramento e divulgação de impactos ambientais. Esta última medida ganha urgência particular com a divulgação dos relatórios IFRS S1 e S2 relativos ao ano de 2026 no início de 2027, os quais estipulam requisitos para publicação de informações financeiras relacionadas à sustentabilidade. 

Nesse contexto, o Brasil ocupa posição privilegiada para liderar um novo modelo de desenvolvimento sustentável, graças à sua matriz energética majoritariamente renovável e sua biodiversidade. Contudo, para capitalizar essa vantagem, as organizações precisarão rever cadeias de suprimento, avaliar pegadas de carbono e investir em eficiência e inovação tecnológica. O cenário pós-COP30 tende a acelerar regulações ligadas à neutralidade climática, afetando desde indústrias exportadoras até o mercado interno de capitais. 

Paralelamente, o avanço dos Planos Nacionais de Adaptação (NAPs) e dos indicadores do Objetivo Global de Adaptação (GGA) exigirá que as empresas incorporem análises de risco climático e de transição em seus planejamentos. Essa evolução poderá alterar significativamente a precificação de ativos, as políticas de seguros, os padrões de investimento em infraestrutura e as estratégias de continuidade operacional. Isso é especialmente importante para setores mais expostos a eventos extremos, como energia, agronegócio, logística e saneamento. 

Por fim, os mercados voluntários e regulados de carbono criarão novas oportunidades de monetização para negócios que apostam em soluções de captura e armazenamento de carbono, bem como na destinação de resíduos que reduzam a pegada de carbono de sua cadeia de valor. No entanto, a integridade dos créditos comercializados — e sua aceitação internacional — dependerá do alinhamento às regras definidas, o que demanda elevados níveis de governança e transparência de todos os participantes das transações. 

A APSIS Carbon estará presente na COP30, e trará os principais insights e temas abordados. Nos acompanhe e não perca!

Equipe Apsis Carbon
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