Tendências do mercado de tecnologia limpa

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A corrida para mitigar a poluição do planeta Terra e conter as mudanças climáticas tem levado governos e companhias de todo o mundo a investir em aparelhagem e processos operacionais com mínima emissão de carbono. Sendo assim, os setores produtivos vêm se adaptando a uma iminente realidade, cada vez mais ambientalmente responsável.  

Acompanhando esse movimento, a S&P Global Commodity Insights publicou, no início de 2023, um relatório que identifica as dez principais tendências do mercado de tecnologia limpa (cleantech). A seguir, apresentamos uma síntese do estudo. 

1. Preços dos componentes em baixa, mas sem alteração no Capex

Após o arrefecimento da pandemia da Covid-19 (2020-2023), os preços dos suprimentos do ramo de energia renovável, incluindo o transporte de carga, entraram em declínio, mas a despesa com mão de obra construtiva segue o caminho contrário. Logo, o custo com manutenção e expansão da atividade empresarial, conhecido como CAPEX (sigla para Capital Expenditures), não diminui.

  • Energia solar − No princípio de 2023, os módulos fotovoltaicos retornaram à curva descendente registrada antes da conjuntura pandêmica, sobretudo pela queda drástica do valor do polissilício, material usado nos painéis solares. Porém, esse barateamento será compensado pelos fabricantes, instaladores e distribuidores sempre que possível.
  • Energia eólica − As turbinas tiveram seu preço médio elevado desde o segundo semestre de 2021. Intencionando recuperar suas margens de lucro, os fabricantes ocidentais desses equipamentos começaram a repassar a inflação de custos da cadeia de suprimentos aos clientes. E os gastos podem subir até 2024, posto que a instalação dos aerogeradores tem sido atrasada por até dois anos a contar da data da compra. Contudo, a desvalorização do frete e do aço, aliada à competição com as fábricas chinesas, deve provocar uma descida na precificação.
  • Armazenamento de energia − O lítio vem sendo disponibilizado em maior escala neste ano, refreando, ainda que discretamente, o preço do armazenamento de energia, depois de um aumento de 20% a 30% entre o segundo semestre de 2021 e o segundo semestre de 2022. Além disso, o acréscimo dos dispêndios energéticos propicia uma maior procura por baterias e mais concorrência para garantir o fornecimento desses componentes. Em contrapartida, devido à alta demanda, o CAPEX do setor não é alterado significativamente.
2. Rápida evolução dos segmentos de energia solar e baterias

No último biênio, muitos foram os desafios enfrentados pelo setor de tecnologia limpa. A pandemia da Covid-19 − que limitou a atuação fabril e o deslocamento internacional, ocasionando subida de preços e escassez de suprimentos −, bem como a guerra entre Ucrânia e Rússia (segunda maior reserva de gás natural do mundo), afetou o abastecimento de energia. Isso evidenciou a necessidade de investimento em segurança energética.  

Desse modo, com a dificuldade de importação de gás do leste europeu e os prejuízos financeiros, muitos países apostaram nas fontes renováveis. Em 2023, a capacidade de armazenamento de energia eólica/solar e de bateria alcançou 500 GW mundialmente, ou seja, 20% a mais do que em 2022. 

Particularmente na Europa e na América do Norte, o estímulo à autossuficiência é notável, em virtude da intimidadora predominância chinesa nas vendas de equipamentos usados em cleantechs

3. Difusão dos sistemas fotovoltaicos

A geração e o armazenamento de energia solar poderão abarcar novos consumidores a partir de 2023. À medida que cresce a demanda por uma vida mais sustentável, aumenta o interesse em tecnologia limpa para o guarnecimento de eletricidade a modernas residências e pequenas empresas.  

Atualmente, a aquisição de sistemas fotovoltaicos é feita mediante pagamento à vista em dinheiro. Entretanto, as concessionárias e distribuidoras de energia elétrica têm pressionado o mercado para que se crie um modelo de negócio contemplando financiamento e aluguel dos equipamentos, de maneira a facilitar o acesso do público a eles. 

4. Incentivo à prática sustentável

A pandemia da Covid-19 e o conflito russo-ucraniano engendraram questionamentos a respeito da cadeia global de produção e fornecimento de energia, destacando o papel preponderante das tecnologias limpas no futuro próximo. Além de menos poluentes, elas são economicamente mais vantajosas, pois possibilitam a segurança energética dos países, que sofreriam menos com a falta de suprimentos durante crises internacionais. 

Com efeito, em 2022, a União Europeia publicou o REPowerEU, plano que estabelece as bases para a aplicação massiva de energias renováveis em seu território. Os Estados Unidos, por seu turno, aprovaram o Inflation Reduction Act, projeto de lei que desbloqueia US$ 370 bilhões em investimentos climáticos e energéticos. Ademais, a China declarou que aumentará a capacidade instalada de energia eólica e solar para mais de 1.200 GW até 2030. 

Contudo, algumas ações são necessárias para que se construa uma operação efetiva, a saber: 

  • simplificação dos processos de licenciamento, evitando a morosidade na aprovação dos projetos de geração e provimento de energia; 
  • reforço da infraestrutura operacional para atender a vastas demandas; 
  • ampliação de mão de obra qualificada.  
5. Viabilização da concorrência entre os fabricantes de turbinas eólicas

Maior produtora de energia eólica do mundo, a China é uma vultosa exportadora de turbinas de baixo custo. Em razão disso, para que outros países alcancem a autonomia da cadeia de suprimentos, os fabricantes ocidentais terão de recorrer a estratégias capazes de promover competitividade em relação ao gigante asiático.  

Com previsão de crescer mais de 40% até 2030, o setor de energia eólica vem incitando novas abordagens mercadológicas. Para assegurar a lucratividade em longo prazo, a expectativa é de que as indústrias do Ocidente apostem em pesquisa & desenvolvimento e na modularização de novas plataformas, com redução do portfólio de produtos.   

Concomitantemente, nas “fronteiras de carbono”, as importações chinesas estarão sujeitas a mais impostos, conforme o nível de emissões de gases de efeito estufa (GEE) associado à fabricação de suas mercadorias. Portanto, investir em processos operacionais menos poluentes e na reciclagem de materiais será um diferencial para os fornecedores internos, que poderão destacar-se com preços mais atraentes. 

6. Distanciamento entre as metas eólicas offshore e a realidade das indústrias

Devido a políticas nacionais que almejam o cumprimento de metas relativas ao aproveitamento econômico sustentável do meio ambiente, o segmento de energia eólica offshore tem recebido bastante atenção. Em 2022, a capacidade instalada global aumentou 6 GW, atingindo 60 GW. Grande parte desse resultado refere-se aos investimentos da China, do Reino Unido, da França, da Alemanha, do Vietnã, do Japão e da Itália.  

Não obstante, é preciso um incremento de 23 GW por ano para que se obtenha o total previsto de 475 GW até 2050. Conclui-se, então, que o setor enfrentará inconvenientes para concretizar tal objetivo, dada a insuficiência da cadeia de suprimentos. A concorrência entre os fornecedores acarretou preços muito baixos e restringiu a oferta de produtos. 

Na Europa, todavia, é provável que medidas sejam tomadas para evitar um cenário crítico. O continente é pioneiro na regulação ambiental e tem se empenhado para conquistar sua segurança energética por meio de fontes renováveis.  

7. Estados Unidos na liderança em geração de hidrogênio verde

Refletindo suas políticas federais de 2021 e 2022 − respectivamente, Bipartisan Infrastructure Law (aumenta os recursos para que as empresas reduzam sua emissão de poluentes) e Inflation Reduction Act (destina bilhões de dólares para expandir a indústria de baixo carbono) −, os Estados Unidos se tornaram líderes na produção de hidrogênio verde. Como consequência, o governo canadense planeja aprovar créditos fiscais semelhantes aos instituídos pelos vizinhos norte-americanos. 

Enquanto a Europa pondera sua conduta no que tange a essa nova fonte energética, o Japão e a Coreia do Sul cogitam a possibilidade de importar hidrogênio verde da América do Norte, tendo em vista o atingimento de suas metas de descarbonização. 

8. Ações focadas na emissão zero de carbono

A progressiva cobrança por emissão zero de CO2 deu vazão a múltiplos projetos de CCUS (do inglês carbon capture, utilization and storage, isto é, captura, utilização e armazenamento de carbono), sobretudo a partir do segundo semestre de 2022. Apesar disso, mais de 70% dos empreendimentos de larga escala estão na fase inicial de desenvolvimento. Somente 3% chegaram à etapa de construção. 

Por outro lado, mesmo que ainda sejam incipientes, as centrais de CCUS representarão, em breve, um mecanismo essencial para a descarbonização do meio ambiente. Dedicando-se a realizar esse fim, a indústria de cimento, por exemplo, tem investido em tecnologia de ponta. E isso estimula a adesão de outros setores. 

Com o fortalecimento dos mercados voluntários de carbono, também haverá a promoção das atividades de CCUS. Outrossim, por conta de políticas como o Inflation Reduction Act, espera-se que toneladas de poluição sejam capturadas diretamente do ar (direct air capture − DAC) antes de 2030. 

Quer saber mais sobre mercado voluntário de crédito de carbono? Acesse o FAQ da Apsis Carbon

9. Energia nuclear ganha sobrevida

Ao passo que se avança na elaboração de expedientes contra as mudanças climáticas, nota-se a especial contribuição da energia nuclear para a emissão zero de carbono. Por conseguinte, é perceptível uma reorganização mundial frente a essa alternativa não desencadeadora de GEE. 

Até 2035, a China superará a América do Norte e a Europa em capacidade instalada, abarcando 53% da infraestrutura global. Já os Estados Unidos têm buscado estender a vida útil de suas usinas e fomentar novos projetos no setor, graças aos incentivos fiscais oriundos do Inflation Reduction Act. A União Europeia, por sua vez, adicionou a geração energética atômica à sua Taxonomia de Atividades Sustentáveis e reconsidera o encerramento de algumas centrais nucleares, assim como programa novas instalações de menor porte. 

10. Aderência às bombas de calor

Embora o sistema de aquecimento nas esferas doméstica e industrial consuma metade de toda a energia produzida no mundo, as fontes renováveis correspondem a apenas 11% desse segmento. Por isso, em linha com a agenda da sustentabilidade, boas perspectivas de negócio surgem para os produtores de bombas de calor, a julgar pela gradual substituição do gás e das caldeiras de combustível fóssil.  

Entre 2020 e 2021, as vendas desses dispositivos ecologicamente corretos tiveram crescimento de 13%. Com a intensificação das políticas ambientais, presume-se que os próximos anos sejam ainda mais promissores. Na União Europeia, por exemplo, o plano REPowerEU propõe a implantação de 30 milhões de bombas de calor até 2030.  

Dessa forma, acenam no horizonte alargamento da capacidade produtiva, fusões e aquisições de empresas da área, além de inovações tecnológicas para aplacamento dos custos e melhoria da eficiência dos equipamentos.  

Gostou do artigo? Acompanhe o blog da Apsis Carbon e saiba mais sobre o tema. 

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